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  • Luiz Gustavo

O comportamento de risco dos adultos dificulta a reabertura de escolas

Até os adultos fora da escola podem influenciar a segurança sanitária dentro dela, apontam pesquisadores junto à Organização Mundial da Saúde.

À medida que as escolas de todo o país avançam ou recuam nos projetos de reabertura, e enquanto o Brasil vive seu momento mais crítico na pandemia até agora, as atenções naturalmente se voltam aos cuidados de higiene, à infraestrutura física escolar e ao distanciamento social. Embora tudo isso seja indiscutivelmente crucial, é importante também ter em mente que o principal agente de contágio nessa cadeia pode não ser a criança, mas sim o adulto - até mesmo aqueles que não estejam na escola.


Esse alerta, ainda mais válido em um momento de alta das infecções no país, vem tanto de estudiosos quanto da Organização Mundial da Saúde (OMS) - que explicam que, nos focos de covid-19 identificados em escolas pelo mundo, acredita-se que, na maioria dos casos, o vírus tenha sido levado para lá dentro por conta do comportamento de adultos próximos, e não do das crianças.


Durante toda a pandemia, o médico François Angoulvant e seus colegas têm estudado o comportamento de doenças infecciosas em crianças e adolescentes em Paris, a partir dos dados de 972 mil atendimentos em seis prontos-socorros infantis da capital e arredores, entre 2017 e 2020. Durante o primeiro lockdown na França, em junho e julho, quando as escolas ficaram fechadas, as visitas e internações em prontos-socorros pediátricos caíram, respectivamente, 68% e 45% em relação a anos anteriores - ou seja, as crianças ficaram muito menos doentes de modo geral, de males como bronquiolite ou gripe, por exemplo.


Quando o lockdown foi aliviado e as escolas reabriram, os atendimentos pediátricos voltaram a subir. No entanto, no segundo lockdown, as escolas se mantiveram abertas com medidas de controle, mas o governo endureceu o isolamento para a população adulta. Daí, mesmo com as aulas presenciais em curso, as infecções infantis voltaram a cair em Paris.


As "lições inesperadas" desses resultados, diz Angoulvant, são de que o adulto tem um papel fundamental na transmissão de doenças infecciosas para as crianças, e isso é particularmente importante no caso da covid-19, uma vez que estudos até agora apontam que crianças de até dez anos adquirem e transmitem o vírus com muito menos frequência do que as mais velhas ou os adultos.


As conclusões dos pesquisadores são reforçadas por um levantamento de outubro de 2020 da OMS, compilando estudos e informações globais a respeito da volta às aulas. A OMS afirmou que, nos surtos identificados dentro de escolas, "na maioria dos casos de covid-19 em crianças a infecção foi adquirida dentro de casa". "Nos surtos escolares, a probabilidade maior era de que o vírus tivesse sido introduzido por adultos", prossegue o documento. "A transmissão funcionário-para-funcionário foi a mais comum; (a transmissão) entre funcionários e estudantes foi menos comum; a mais rara foi de estudante para estudante."


François diz que o risco aumenta quando os adultos baixam a guarda nas medidas básicas de distanciamento social. "Temos esse problema até com profissionais de saúde. Nos focos ocorridos entre eles, na maioria das vezes (o coronavírus) não veio dos pacientes, mas (da interação entre) os próprios profissionais - por exemplo, quando almoçam juntas ou tomam café, lado a lado, oito pessoas na mesma sala", explica. "Quando estão interagindo com os pacientes, eles (profissionais de saúde) colocam máscaras e tomam todos os cuidados. Mas entre si, eles relaxam. Isso vale para qualquer profissão, quando se adotam comportamentos de risco", prossegue o médico.


De modo geral, os dados internacionais têm mostrado que o nível de contaminação entre crianças acompanha o dos adultos, embora em menor quantidade. "Elas (crianças) parecem mais seguir a situação do que impulsioná-la", disse à revista Nature o epidemiologista Walter Haas.


Os estudos apontam que um ambiente escolar com condições sanitárias adequadas, boa ventilação, restrições ao número de pessoas e medidas de distanciamento social não ofereceria um risco excessivo para professores e demais profissionais. "Todos estamos em risco, mas acho que se você trabalha em um supermercado corre mais risco do que se trabalha em uma escola", defende Angoulvant.


No entanto, muitos estudos só recomendam a volta às aulas presenciais quando a transmissão comunitária está sob controle na comunidade - o que não é o caso do Brasil no momento, que bateu na quinta-feira a marca de mais de 1,5 mil mortes por covid-19 em 24h. Diante de UTIs lotadas, alguns estados e municípios decidiram adiar a reabertura de suas escolas.


O que traz preocupações adicionais, principalmente no momento em que os níveis de contágio continuam alto pelo país, com números exorbitantes de infecções e mortes. No Brasil, de modo geral, não é fácil, no caso da covid-19, averiguar a direção do contágio entre crianças, explica à BBC News Brasil o epidemiologista Paulo Lotufo.


No entanto, é indiscutível, diz Lotufo, que as ações dos adultos podem ter efeitos colaterais dentro das escolas. "A responsabilidade do adulto sempre foi crucial (nesta pandemia). Aquele tio que aparece para jantar pode contaminar o sobrinho, que contamina cinco amigos na escola e que levam o vírus para os pais", diz. E esse ciclo pode eventualmente tornar a sala de aula um foco do novo coronavírus, principalmente se não for adotado um protocolo rígido pelas escolas e respeitado pelos pais, alunos e equipes.


Todo esse cenário pode ser agravado pelas novas variantes do coronavírus em circulação. Um ponto importante, diz François Angoulvant, é que dados vindos do Reino Unido - onde as escolas foram temporariamente fechadas na tentativa de conter o avanço da variante britânica - parecem indicar que as crianças continuam sendo transmissoras menos eficientes do que os adultos.


"Crianças com a variante britânica são mais contagiosas, mas muito menos do que adultos", diz o especialista francês. "No Reino Unido, o número de crianças infectadas aumentou, apesar de a escola estar fechada. O que, de novo, mostra que as crianças a maior parte do tempo são infectadas por adultos." No entanto, à medida que mais adultos são vacinados contra o novo coronavírus no mundo, uma preocupação crescente é de que novas variantes se desenvolvam justamente entre crianças - um público que por enquanto não tem previsão de ser vacinado, uma vez que não há testes concluídos sobre a segurança e a eficácia da vacina nele. É o que tem acontecido em Israel, onde a maioria da população adulta já foi vacinada contra a covid-19.


Se a contaminação cresce na população infantil, um possível desdobramento preocupante é que haja mais casos de síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica (SIM-P), uma rara, mas perigosa doença que acomete uma pequena parcela das crianças e adolescentes que entram em contato com o Sars-CoV-2.


Em geral, essas crianças adoecidas passam sem dificuldades pela covid-19, mas algumas semanas depois da infecção desenvolvem sintomas mais graves, como febre persistente (ao menos três dias), mal-estar e, em parte dos casos, problemas gastrointestinais (como diarreia, vômito e dores abdominais), manchas e coceiras no corpo e conjuntivite.


No caso desses sintomas, é preciso procurar urgentemente o atendimento médico, uma vez que a síndrome pode atacar múltiplos órgãos simultaneamente - causando problemas cardíacos, renais, respiratórios, gástricos, entre outros, informam os CDCs, centros americanos de controle de doenças.


No Brasil, o Boletim Epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde, de outubro de 2020, identificou 319 casos da SIM-P entre crianças de adolescentes de 0 a 19 anos, com 23 mortes. O mais importante é buscar atendimento rápido no caso de sintomas persistentes, afirma François Angoulvant.


Segundo o estudo, um tratamento ágil, incluindo corticosteroides, consegue prevenir o agravamento dos quadros. "Se identificamos mais cedo, tratamos mais cedo, diminui-se muito a necessidade de UTI e a melhora é mais rápida", diz Angoulvant. Ele ressalta, porém, que por enquanto a SIM-P continua sendo rara: atinge em torno de uma criança a cada 10 mil.


Fonte:Uol

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